sábado, 22 de novembro de 2008

A LÓGICA DO CISNE NEGRO

Por Luisa Monteiro


Semana passada, aconteceu em São Paulo, nos dias 10, 11 e 12 de novembro, um dos maiores eventos da Administração Brasileira: O ExpoManagement 2008 organizado pela HSM, que foi realizado no Expo Center Transamérica. Em uma de suas grandes palestras estava o autor do livro A Lógica do Cisne Negro, Nassim Nicholas Taleb, onde falou sobre: O cisne negro e a imprevisibilidade do futuro.
Taleb disse que: o medo do desconhecido faz com que muitas pessoas tomem decisões com base em cenários futuristas, e se esqueçam de se defender do inesperado. Esse foi um dos alertas feito pelo libanês Nassim Nicholas Taleb, doutor em probabilidade e uma das maiores autoridades mundiais em gestão de riscos, que encerrou as palestras da ExpoManagement 2008 da HSM.
Taleb é o autor de A Lógica do Cisne Negro: o impacto do altamente improvável.
Os cisnes negros eram tidos como inexistentes, antes de terem sido descobertos na Austrália, daí a metáfora. Um evento cisne negro é inesperado, altamente improvável e imprevisível, e, quando acontece, traz conseqüências de grande vulto.
Exemplos de acontecimentos cisnes negros: a Primeira Guerra Mundial, a destruição das torres do World Trade Center, a expansão do uso do computador, o raio laser e o advento da internet. Taleb conta que, na década de 80, o presidente Ronald Reagan criou a DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency), voltada a projetos de inovação que pudessem enfraquecer os russos. Assim nasceu a internet, uma forma de comunicação inovadora, para uso militar, acadêmico e científico. Quem pensaria que se tornaria o que é hoje?
No dia-a-dia, Taleb aconselha que as pessoas e as empresas não tomem decisões e não façam planos baseadas em previsões. “Os modelos que prevêem o futuro jamais se mostraram eficazes”, reforça. Agora, com a crise dos mercados financeiros mundiais, o diagnóstico se confirma.
As previsões de estatísticos e de economistas, baseadas em cenários futuristas, geralmente minimizam os riscos. Para Taleb, os bancos sempre se apresentaram como instituições sólidas e conservadoras, mas se expõem, diariamente, a um nível altíssimo de riscos. Muito dinheiro virou pó com esta crise, o que indica que os riscos eram muito maiores do que aparentavam.
“Se, há oito anos, alguém dissesse que Bush nacionalizaria bancos e seguradoras, seria tachado de louco. As previsões baseiam-se em lógicas observadas no passado, mas estas lógicas não dão pistas para o verdadeiro futuro”, ressalta Taleb.

Ame o risco quando você pode perder pouco

Nassim Taleb defende que existem dois mundos: o “mediocristão” e o “extremistão”. Exemplos do “extremistão”: existem mais de três mil medicamentos, mas somente cinco deles representam a maior parte dos lucros; a cada ano, 16 mil romances são publicados na língua inglesa, mas somente de cinco a 35 compõem metade das vendas. Já no “mediocristão”, as coisas são definidas pela média.
No contexto do “extremistão”, as previsões não se sustentam. No final de 2004, havia uma previsão de que o preço do barril do petróleo, em 25 anos, estaria em US$ 24,00. Seis meses depois, a previsão foi alterada para R$ 50,00. No ano passado, o preço já havia ultrapassado os US$ 100,00. Este ano, com a queda da demanda, o preço já diminuiu e está oscilando para baixo.
O efeito colateral de uma ação ou de uma invenção, muitas vezes ignorada, é que dá ensejo a descobertas incríveis. Muitas novas descobertas da indústria farmacêutica nasceram de efeitos colaterais de remédios já existentes. E os efeitos nocivos à economia de muitas empresas e de muitos países são efeitos colaterais da globalização.
Por tudo isso, Nassim Taleb dá algumas recomendações:
Não se exponha aos cisnes negros negativos. Saiba sempre onde você está, e aprenda com exemplos ruins o que não fazer. Além disso, os livros de estatística devem ser banidos.
Procure os cisnes negros positivos. Ao se tentar fazer alguma coisa, é bom falhar um pouco. O que não se pode é falhar muito, com base em previsões.
Sempre faça um seguro. Vale muito mais do que se pensa.
Avalie sempre a robustez de seu negócio e de seu empreendimento frente a pretensas situações inesperadas, que podem ser cisnes negros.
Confie na experiência e na memória. O conhecimento acumulado com a experiência ajuda muito.
Concluindo, Taleb dá um mais um precioso conselho: “Ame o risco, quando você pode perder pouco, e odeie o risco, quando você pode perder muito”.

Em seu livro A lógica do Cisne Negro Taleb chama de “cisnes negros” os acontecimentos que atendem às seguintes condições:

  1. Estão fora do âmbito das expectativas normais, porque nada no passado indica de forma convincente essa possibilidade.
  2. Produzem forte impacto.
  3. Apesar de serem imprevisíveis e inesperados, a natureza humana tece, a posteriori, explicações sobre sua ocorrência, tornando-os compreensíveis e prescindíveis em retrospectiva.

Taleb diz que o problema do cisne negro é o “problema de indução” e pode ser formulado assim: Como podemos, de forma lógica, partir do particular para chegar a conclusões gerais?
Como podemos conhecer o futuro com o conhecimento do passado?
Como podemos descobrir as propriedades do desconhecido (infinito) baseando-nos no conhecido (finito)?
E ele ilustra com uma metáfora brilhante. Imagine um peru que é alimentado diariamente. Cada vez que come, ele reafirma sua crença em que receberá alimento da mão de membros amigáveis da raça humana em todos os dias de sua vida. Só que, na véspera do Natal, algo inesperado ocorre. O passado foi totalmente irrelevante para o peru.

Nassim Nicholas Taleb, um dos maiores especialistas em risco da atualidade, propõe a gestão do desconhecido, do pouco provável, do extremo. Por quê? O autor garante, em seu best-seller The Black Swan, que o impacto do altamente improvável –fatos fortuitos que ele chama de cisnes negros– é o que explica quase tudo.
Com um estilo provocador e questionador, Nassim Nicholas Taleb ilustra com esse exemplo o que ele denomina “cisne negro”, um acontecimento que, por definição, cumpre três condições: 1. está fora do âmbito das expectativas porque nada no passado indica sua possibilidade, 2. produz forte impacto e, 3. apesar de não ter sido esperado, tornasse claro e previsível em retrospectiva (ou seja, sua explicação é evidente depois da ocorrência).
Segundo Taleb, a metáfora do cisne negro não alude apenas à raridade de certos acontecimentos, mas também à fragilidade de nosso conhecimento e aos limites do aprendizado baseado na observação e na experiência. Porque, como explica, antes do descobrimento da Austrália, acreditava-se que todos os cisnes eram brancos.
Foi lá onde foi visto pela primeira vez um exemplar negro, e naquele momento ficou demonstrada a falseabilidade do conhecimento fundado em milhares de anos de observações confirmatórias de milhões de cisnes brancos.
Mas por que a ênfase nos cisnes negros? Qual é sua relação com o risco e a tomada de decisões? Em poucas palavras, porque, segundo ele, um pequeno número de cisnes negros explicaria quase tudo no mundo: desde o triunfo de certas idéias e religiões até a dinâmica dos fatos históricos e os eventos significativos de nossa existência. Mais ainda, Taleb afirma que a maioria dos descobrimentos revolucionários é fruto de acontecimentos fortuitos e imprevisíveis, mais do que do planejamento. “Durante mais de um século, quase todos os pesquisadores das ciências sociais trabalharam sob a falsa crença de que suas ferramentas podiam medir a incerteza”, afirma. “É o que tenho visto no campo das finanças e da economia.” E acrescenta:
“Pergunte para quem gerencia sua carteira de investimentos qual é sua definição de risco, e o mais provável é que responda com um indicador que exclui a possibilidade do cisne negro. E, portanto, para estimar os riscos totais, isso não tem mais valor preditivo do que a astrologia”.

Um mapa para o desconhecido

As idéias de Taleb vão no sentido oposto do saber convencional, que habitualmente se concentra no conhecido. Sua originalidade desconcerta, porque parte da premissa de que o mundo está dominado pelo extremo, pelo desconhecido e pelo muito improvável. Para se orientar nesse terreno obscuro, a primeira aproximação é entender as diferenças entre “Extremistão” e “Mediocristão”, as duas províncias do mapa que ele explica em The Black Swan, seu livro. A principal delas é que no Extremistão predomina o “escalável”, e no Mediocristão, o “não-escalável”. Com o objetivo de esclarecer o significado do termo, Taleb recorre às profissões: as que atendem quantia limitada de clientes ou pacientes em certo período, como a consultoria e a odontologia, são não-escaláveis. Quem as exerce, explica, “depende mais de seus esforços contínuos do que da qualidade de suas decisões.
Por outro lado, trata-se de um tipo de trabalho muito previsível, haverá variações, mas nunca a ponto de fazer com que o lucro de um único dia seja mais significativo do que o do resto da vida”. Por sua vez, as profissões que não cobram por hora são escaláveis. J. K. Rowling, a autora da série Harry Potter, por exemplo, não escreve um livro para cada leitor; o esforço é o mesmo para um ou para milhões.
O curioso é que, se Taleb tivesse de aconselhar alguém sobre qual profissão escolher, ele recomendaria uma não escalável. “As escaláveis só são benéficas quando se tem sucesso”, diz, “mas são mais competitivas, aleatórias, produzem desigualdades monstruosas, com grandes disparidades entre esforços e recompensas: uns poucos ficam com a maior porção do bolo, enquanto a maioria tem de se contentar com as migalhas. Mas as pessoas não querem ser dentistas, e sim enriquecer rapidamente.”
Taleb também usa o conceito de “escalabilidade” para distinguir dois tipos de incerteza: leve e extrema. “Imaginemos que reunimos mil pessoas escolhidas ao acaso e que a esse grupo acrescentamos a pessoa mais gorda que possa existir; suponhamos que pese três vezes mais do que o peso médio, cerca de 200 quilos. Essa pessoa representará uma pequena fração do peso das mil pessoas (nesse caso, menos de 0,5%). Se em vez de mil pessoas tivéssemos reunido 10 mil e a esse grupo somássemos o indivíduo mais gordo do planeta, sua contribuição ao peso total seria muito pequena.” A incerteza é dita leve porque, no caso do peso, assim como no da altura, todos sabemos que é impossível encontrar indivíduos que pesem toneladas ou que tenham vários quilômetros de altura. Na utópica província do Mediocristão, caracterizada pela incerteza leve, quando a amostra é grande, nenhuma instância isolada muda significativamente a soma ou o total. Os eventos particulares não têm forte incidência no resultado.
A província do Extremistão, por sua vez, é caracterizada por um tipo de incerteza diferente. Taleb explica assim: “Se, em vez de levar em conta o peso, considerarmos a riqueza das mil pessoas reunidas no exemplo anterior e a elas somarmos um dos homens mais ricos do planeta –Bill Gates, por exemplo–, sua incorporação mudará significativamente o resultado final. Enquanto o capital somado das mil pessoas será de uns poucos milhões, a fortuna do dono da Microsoft pode ser estimada em US$ 80 bilhões, o que representa cerca de 99,9% do total”. No Extremistão, portanto, as desigualdades são tão grandes que uma única instância pode modificar amplamente o total. O Extremistão é a província dos cisnes negros. Lá podem acontecer as variações mais pronunciadas e, portanto, a incerteza é extrema. Além da riqueza, são do âmbito dessa província os lucros, as vendas de livros por autor, o reconhecimento de celebridades, os danos causados por terremotos, as mortes ocorridas por guerras ou ataques terroristas, o tamanho das empresas, os mercados financeiros, os preços das commodities e as taxas de inflação, entre muitas outras coisas.

Apostar no inesperado

Como vivemos em um mundo cada vez mais parecido com o Extremistão, onde a maioria dos indicadores de risco falha porque ignora a probabilidade dos cisnes negros, a estratégia de Taleb como operador de bolsa de valores consiste, segundo suas palavras, em “ser tão hiperconservador ou hiperagressivo quanto puder, em vez de ser moderadamente conservador ou agressivo”.
Em vez de colocar o dinheiro em investimentos de “risco médio”, Taleb destina a maior parte, entre 85% e 90%, a instrumentos muito seguros, como bônus do Tesouro norte-americano, e arrisca 10% ou 15% em apostas muito especulativas, como as opções de ações. Também tenta se expandir para muitas pequenas apostas e evita se sentir fascinado pela possibilidade de um único cisne negro; dessa maneira, fica exposto à possibilidade de múltiplos cisnes negros positivos, enquanto os negativos não podem afetá-lo além de seu “piso”, ou seja, os investimentos seguros. Da estratégia da bolsa, Taleb extrai instruções para a vida de forma geral. Uma delas é fazer a distinção entre contingências positivas e negativas, ou, dito de outra forma, aprender a identificar os empreendimentos nos quais a falta de capacidade de previsão pode ser benéfica e aqueles cuja impossibilidade de fazer previsões pode ter conseqüências nefastas.
No setor financeiro, por exemplo, as surpresas costumam ser negativas. Se emprestarmos dinheiro, na melhor das hipóteses o recuperaremos, mas podemos perder tudo se o devedor for à falência. E, no caso de grande sucesso financeiro, não é provável que o credor receba um dividendo adicional.
Mas os cisnes negros poderiam ter repercussões positivas em setores como o cinematográfico, alguns segmentos da indústria editorial, a pesquisa científica e o capital de risco. Nesses casos, as perdas são pequenas e os lucros potenciais muito altos. “Há pouco para perder com cada livro, por exemplo, e, por razões inesperadas, qualquer um pode se transformar em um boom”, comenta Taleb. Por outro lado, levando em conta que as oportunidades –cisnes negros positivos– são pouco freqüentes, é conveniente aproveitar todas as que se apresentarem e estar predisposto para os encontros causais e afortunados.
“Muita gente se decepciona quando me ouve”, afirma Taleb, “porque digo o que está mal e não explico passo a passo como agir, Mas fazer isso seria puro charlatanismo.” Uma de suas advertências é não dar ouvidos aos anúncios oficiais. “Não se guie pelas previsões dos funcionários do governo”, aconselha. “Longe de estarem interessados em chegar à verdade, querem apenas sobreviver e se perpetuar, e costumam fazer previsões, porque dessa forma justificam sua existência.” Também não convém seguir os analistas da bolsa, economistas e especialistas em planejamento estratégico, ou gastar energia em contradizê-los. “De nada serve se queixar da incapacidade de previsão; as pessoas vão continuar fazendo previsões, especialmente se ganham para isso”, comenta. “E quem prestar atenção a um prognóstico deve ter em mente que sua precisão se degrada à medida que se estende no tempo.” Daí que ele recomende, também, não fazer projeções para cinco anos ou mais.

Aprender a dizer “não sei”

“As pessoas não gostam de ouvir que o mundo é mais aleatório do que imaginam”, afirma, enfático, Taleb. “Preferem ‘profetas’ que mintam e as façam se sentir bem. Mas eu tento não me afastar de uma idéia simples: em algumas áreas o extremo domina. E os grandes remédios também são simples. O mais complexo é aprender a falar ‘não sei’, e não procurar as causas. Aceitar as coisas como são, em vez de inventar histórias que as expliquem, porque então nos transformamos em adoradores das causas.” Segundo seu critério, a tendência de buscar as razões que expliquem o observado produz conclusões equivocadas. Os estudos sobre os atributos dos vencedores são um bom exemplo dessa busca de relações causais e de achados errôneos, porque a maioria considera um conjunto de indivíduos de sucesso em cargos de destaque, analisa as qualidades que têm em comum e chega à conclusão de que a coragem e, principalmente, a disposição de assumir riscos encabeçam a lista de atributos que influenciam uma carreira estelar.
“Algumas qualidades são necessárias, mas insuficientes”, explica Taleb. “A coragem é necessária no mundo dos negócios, mas tão necessária para ter sucesso como para fracassar. O problema é que essas pesquisas não levam em conta aqueles que se dão mal. Com freqüência colocamos o foco em uma cadeia de causa–efeito equivocada. Se vemos que um empreendedor assume riscos e tem sucesso, pensamos que arriscar conduz ao sucesso. Mas há enorme quantidade de empreendedores que fracassaram ao assumir riscos. Deveríamos incluir todos na análise.” Mais do que se esforçar para prever o inesperado, Taleb recomenda aos executivos que se preparem para seu possível acontecimento, estimando como afetaria a empresa e baseando suas decisões nesse impacto. Dito de outro modo, não é mais necessário conhecer as probabilidades de um evento insólito, mas sim ter claros os benefícios ou prejuízos que produziria. “Uma pessoa no comando de uma empresa farmacêutica, por exemplo, tem de entender que seus erros de previsão serão enormes, o que não é um problema se ela souber quanto poderiam lhe custar. Portanto, é aconselhável não colocar o foco em quanto ela pode estar enganada; em vez disso, ela tem de se concentrar em quanto custará se ela se enganar. É uma lógica diferente”, explica.
Uma lógica que, em muitos casos, mostrase difícil de incorporar, como aponta Taleb ao lembrar sua passagem por um programa de negócios na TV para falar do “aleatório”. Depois de ouvi-lo, disseram: “Adoramos sua idéia de que não é possível prever o que vai acontecer. Mas o senhor faria a gentileza de nos informar qual será a taxa de inflação dos Estados Unidos daqui a um ano?”.


Fonte:
HSM Management edição 65
03/09/2008
Portal HSM On-line
12/11/2008

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